quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Capitu 2.0

Faz tempo que ouço falar do escritor Marcelo Mirisola, desde a década de 90, pra ser exato. Mas nunca havia lido nenhum de seus livros, apenas artigos em jornais, geralmente espinafrando uns e outros.

Acabei há pouco um romance seu, “Joana a Contragosto”, publicado em 2005 (mais de dez anos!) pela Ed. Record. E devo dizer que gostei bastante.

O livro conta a estória de um escritor (mais um menos parecido com o próprio Mirisola), que se envolve com uma maluquete chamada Joana. Na verdade ela é que entra em contato com ele dizendo ser sua fã. Mas além de explicitar sua admiração também lhe manda fotos do seu belo corpo. O escritor no início pensa ser vítima de algum trote mas aos poucos percebe que a coisa é de verdade. Ela, a cada e-mail mandado se mostra cada vez mais solícita e apaixonada. O escritor, interessadíssimo, resolve viajar ao Rio de Janeiro para encontrá-la (ele mora em Florianópolis).

Lá chegando, eles se encontram num hotel fuleiro, à meia-noite, transam loucamente, e o escritor entrega seu amor e sua alma àquela desconhecida. A partir daquele momento sua vida estará ligada a de Joana, desenvolverá uma paixão arrebatadora, que, logo percebe, não é correspondida. O que era paixão acaba virando obsessão.

Um resumo destes, reconheço, é muito redutor. “Joana a Contragosto” apresenta-se ao leitor como um redemoinho que englobasse o escritor-personagem, a doida Joana, a cidade do Rio de Janeiro, tudo num fluxo de consiência cheio de idas e vindas no tempo cronológico dos acontecimentos, de repetições que ressaltam o aspecto obsessivo do protagonista.

Mas quem seria esse protagonista? O escritor ou Joana? Ele por nos contar a história ou ela por fazer com que ela exista? Afinal, o livro todo gira em torno da sua existência. O narrador, apesar de ser a voz ativa no livro, não o é em sua própria vida, esta seguindo ao bel prazer das promessas ou recusas vindas de sua paixão.

Joana seria uma espécie de Capitu 2.0 movida a cocaína e sexo. Colecionando parceiros e amando a todos eles, ou ao menos, da boca pra fora (e da buceta pra dentro).

O escritor fantasia um futuro amoroso com Joana, filhos, casa, vida em comum, mostra-se disposto a abdicar de sua arte e de sua condição de outsider literário para abraçar com gosto a vida mais comum e convencional em nome desse amor. Mas, Joana, apesar de dizer amá-lo, o rejeita fisicamente. Aos poucos ele descobre que suas juras são as mesmas para vários, o que não faz com seu amor por ela recrudesça, ao contrário, ele sabe que mesmo que nunca mais a veja sempre a amará.









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