
"Luz em Agosto", de William Faulkner (1932) começa nos apresentando a garota Lena Grove, que fugira de sua casa, grávida, atrás do pai de seu filho, um tal Lucas Burch. Seguindo os rastros dele acaba chegando a uma serraria. Lá percebe que as indicações que teve para encontrá-lo eram erradas pois a levaram não a Burch mas a Byron Bunch, o conhecido administrador da serraria. Byron se apaixona pela frágil e bela Lena. Ela lhe conta sua história, e ele procura o reverendo Hightower, um homem recluso, segregado e rejeitado pela comunidade pelo assassinato de sua mulher num momento de fúria ocorrido no passado para que juntos deem guarida à pobre e ingênua Lena.
Ingênua pois pelas descrições que fez de Burch para Bunch, este logo percebeu que se tratava de Joe Brown, um dos operários da serraria. Portanto estava claro que Brown/Burch havia fugido de Lena e de suas responsabilidades de pai.
Brown era um sujeito bruto, bronco e preguiçoso, que viu alguma vantagem em andar por aí com um tal Christmas, sujeito mau encarado que surgira na serraria procurando trabalho. Com cara de poucos amigos, falava menos ainda, mas também percebeu a utilidade em ter Brown como uma espécie de sócio no comércio ilegal de bebidas que planejava por em prática.
Christmas conseguiu abrigo debaixo do teto da sra. Berta, uma solteirona de meia idade, mas ainda atraente, que gostava de se envolver com os negros pobres que volta e meia iam e vinham da pequena cidade de Jefferson.
Christmas é um homem atormentado pelo passado - e todos os personagens do livro também, aliás. Um passado de violência familiar, pobreza, decepção e a sombra de uma linhagem negra que ele tenta a todo custo esconder. Sua forma de lidar com o mundo é confrontando-o brutalmente, a ele e a quem colocar-se em seu caminho.
Já Byron Bunch, seuas preocupações têm a ver com o destino de Lena, e a angústia de vê-la iludida pelo homem que a engravidara, sentindo ainda sentimentos amorosos por ele.
Quanto ao reverendo Hightower, sua cruz não era o fato de ter sido afastado do convívio da comunidade, mas a tentativa de Byron de colocá-lo de volta nela envolvendo-o num assunto que não lhe compete.
As coisas complicam quando Christmas num acesso de fúria mata Berta, decapitando-a, e põe fogo em sua casa. A partir de então começa uma caçada ao assassino que manterá todos numa tensão constante em que interesses presentes e fantasmas do passado se unirão para influenciar e decidir o futuro de Byron, Lena, Hightower e Joe Brown.
A prosa de William Faulkner tem uma elegância austera, dura como os cenários que retrata, o sul dos EUA, seus pântanos, paisagens áridas em que pessoas paupérrimas sobrevivem em cabanas desoladoras, ou em comunidades religiosas em que os maiores arbítrios ocorrem em nome de Deus.
Grande parte das mais de quatrocentas páginas do livro se passam dentro da mente dos personagens. Através de suas ideias limitadas, confusas, de suas lembranças traumáticas. Eles não são idealistas, nem tem grandes planos para suas existências, antes, parecem conformados com suas vidas, e agem como se nunca tivessem esperado algo mais delas.
Faulkner utiliza neologismos que nos lembram os de James Joyce, por exemplo. Sua narrativa não é linear, modifica-se a cada vez que a história é contada por um personagem diferente. E em momentos um mesmo trecho é contado por distintos pontos de vista dos envolvidos. O que faz com que a história ganhe um aspecto de livro policial, novela detetivesca em meio ao pântano das almas dos habitantes do delta do Mississippi.
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