quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Futuro do Presente

Texto escrito em 2017:

"Acabei de reler “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, mais ou menos vinte anos depois de fazê-lo pela primeira vez. O que mais chama a atenção na história e a torna tão atual não são as descrições de meios de locomoção ou moradias impensadas, mas sim o comportamento daquela sociedade, seus valores, o que consideram normalidade, e o que absurdo, e o fato de estarmos chegando perto demais de nos tornarmos, num futuro não tão distante, vítimas de uma visão de mundo derivada da vontade de mudá-lo para melhor. 

Encontramos nesse “admirável mundo” uma sociedade com valores bem diferentes dos nossos. Em que a ideia de alguém ter sido criado por um pai e uma mãe parece ser o maior dos absurdos (e causa até mesmo repulsa), em que a monogamia é vista como outra sandice, chegando a ser proibida. Em que as emoções de todos são controladas através de um medicamento, o “soma”, que não chega a ser obrigatório pois todas as pessoas o tomam por livre e espontânea vontade, sabendo ser ele necessário para que possam lidar com as dificuldades da vida ou mesmo com uma suposta crise existencial. O soma regula a vida de todos e todos se deixam regular por seus efeitos. Não saberiam como viver sem ele, e nem gostariam disso, de qualquer forma.

Nesse futuro distópico, o amor não existe, apenas o desejo sexual. E cada ato é sempre com um parceiro diferente. A música como a conhecemos também não, e sim algo que descrito no texto nos faz pensar em um arremedo de música, em que as harmonias, o ritmo, ou a melodia seriam desidratados até que restasse apenas um sinal hipnótico eletrônico, executado para as plateias em salas de concerto. Os livros foram banidos, aliás, os recém-nascidos aprendem a odiá-los através de procedimentos que os relacionam a traumas criados em laboratório. O cinema, como dito acima, surge como um excitador de sensações eróticas através de sensores que afetam lábios e pele (algo parecido com aqueles equipamentos de “realidade virtual”).

Nesse mundo as crianças continuam nascendo mas não através das relações sexuais, e sim de um processo de fertilização in vitro, portanto o sexo não serve mais à procriação. Aliás, a própria ideia de gravidez é outra coisa que causa repulsa a todos, homens e mulheres. Não existem famílias.

A solidão também é algo que foi banido dessa sociedade. A ninguém é permitido ficar sozinho por muito tempo, a não ser durante o sono. Todos devem interagir o tempo todo em atividades coletivas, reuniões sociais, lugares públicos, concertos, ou nas assembleias em que o Administrador dá o ar da sua graça aos cidadãos, que aspiram a um contato maior com seu grande líder.

Mas o que estaria por trás de todas essas normas? A simples eliminação do sofrimento. Sim, pois para que isso fosse possível a cultura teria que ser banida. Livros, filmes e músicas que aguçassem o nosso senso crítico, ou textos que provocassem questionamentos, filmes que possam desestabilizar nossas certezas, ou nos fazer sonhar com existências impossíveis, amores que nos fariam sofrer quando não correspondidos. A isso junta-se também a extinção da monogamia, já que a constante mudança de parceiros sexuais afasta a possibilidade de qualquer empatia que mais tarde possa resultar em algum tipo de sofrimento amoroso ou sentimento de posse. A supressão da gestação nas mulheres também tem como objetivo a libertação de um sofrimento imposto pela natureza. Assim como a extinção do relacionamento entre pais e filhos, fonte de neuroses e limitações, portanto, de mais sofrimento.

Mas apesar do soma e de todas as regras garantidoras desse bem-estar coletivo, o país tem suas castas. A sociedade é dividida em Alfas, Betas, Gamas e Ípsilones, os menos relevantes. Cada um deles tem uma única tarefa, manter o sistema funcionando.

É nesse cenário que encontramos Bernard, um Beta sem muita distinção nessa sociedade, não consegue ser popular como gostaria, nem ter as mulheres que deseja, não é atraente, sente-se deslocado (dizem que tem álcool no sangue), e nutre sentimentos específicos para com a bela Lenina. Lenina é uma jovem saudável, que mantém a rotina de variação de parceiros, toma seu soma diariamente, segue à risca todas as regras, e até acha possível fazer sexo com Bernard, mas ela acha que ele às vezes age de um jeito meio estranho. Ele a recrimina por ter tantos parceiros, sente ciúmes dela, uma coisa sem sentido, se irrita com frases repetidas por Lenina, que condensam o pensamento que rege a existência naquela sociedade.

Um dia, os dois vão numa excursão até uma parte afastada daquela “civilização”, que existe como se fosse um local de exílio, uma floresta em que vivem os excluídos, os rebeldes, os que não aceitaram viver sob o soma e as regras do Administrador. São os “selvagens”. Ali eles vivem como animais, precariamente, em cavernas, cabanas, numa espécie de zoológico sem grades, açoitam a si mesmos num tipo de espetáculo aos cidadãos da civilização que vêm em bando observá-los.

Um desses selvagens é John. Bernard descobre que John é filho não reconhecido de um membro do governo e decide levá-lo à civilização, junto com sua mãe, a gorda e desdentada Linda. Bernard intui que agindo assim conseguirá ascender na sociedade e deixar para trás seus dias apagados. Finalmente poderia ter todas as mulheres que quisesse e todo reconhecimento que merecia. E é exatamente isso que acontece, Bernard perde a conta dos encontros amorosos que consegue e começa a ser benquisto por todos apenas com a promessa de levar consigo o “selvagem” a reuniões sociais, exibindo-o como uma curiosidade.

O selvagem John, é claro, não consegue se encaixar naquele mundo, para ele nada faz sentido, e sua principal atividade é ler volumes surrados de peças de Shakespeare, autor desconhecido de todos ali (aliás, uma das características incríveis do texto de Huxley é as acuradas citações dos textos do bardo em vários momentos, inclusive dando origem ao nome do livro - “Brave New World”, é tirado de Macbeth). John também não consegue aceitar a forma direta como Lenina se oferece a ele. Seus sentimentos por ela são fortes mas ele insiste em falar de amor, coisa que ela não consegue entender ou aceitar, sua irritação é crescente a cada vez que ele tenta convencê-la de que o sexo deveria ser uma consequência do amor, e não um ato mecânico.

Lenina também percebe mudanças em seu pensamento, causadas por John. Ela o deseja como o faria com qualquer outro, a diferença é que quando ele a recusa ela se magoa. Algo que nunca aconteceu antes simplesmente porque ninguém nunca a recusou. E essas recusas fazem com que seu desejo por ele aumente cada vez mais a ponto dela não querer saber de outro homem, ou seja, ela desenvolveu um sentimento por uma pessoa em especial, algo que não é permitido, nem ela nunca achou que fosse possível ocorrer.

Ao final, depois que os três são punidos e condenados a deixar Londres e irem para ilhas a suas escolhas, John escolhe uma ilha com clima frio, propício a quem gostaria de se entregar à leitura, mesmo com o sofrimento do frio, e outras precariedades. Quando perguntado pelo Administrador o porque de sua escolha ele responde: “Eu escolho o direito à infelicidade”.

Se “Admirável Mundo Novo” é um livro tão importante e suscita questões tão pertinentes, então por que me senti desapontado ao lê-lo? Talvez por certos trechos mal desenvolvidos ou das descrições truncadas de coisas que não existem (e o próprio Huxley admitia falhas na narrativa num prefácio de 1946 – o livro é de 1932), ou talvez por conta da minha dificuldade em considerar verosímeis fantasias futuristas.

Mas o que difere este livro de outras histórias futuristas, como as de Jules Verne, por exemplo, é que em Verne, o futuro é cheio de coisas novas e fantásticas, mas as pessoas agem como no tempo em que o livro foi concebido. Já em Huxley e seu “Brave New World”, as novidades são fantásticas mas modificaram o comportamento dos habitantes. E não necessariamente para melhor.

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