"Acabei
de reler “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, mais ou menos
vinte anos depois de fazê-lo pela primeira vez. O
que mais chama a atenção na história e a torna tão atual não
são as descrições de meios de locomoção ou moradias impensadas, mas sim o comportamento daquela sociedade, seus valores, o que
consideram normalidade, e o que absurdo, e o fato de estarmos
chegando perto demais de nos tornarmos, num futuro não tão
distante, vítimas de uma visão de mundo derivada da vontade de
mudá-lo para melhor.
Encontramos
nesse “admirável mundo” uma sociedade com valores bem diferentes
dos nossos. Em que a ideia de alguém ter sido criado por um pai e
uma mãe parece ser o maior dos absurdos (e causa até mesmo
repulsa), em que a monogamia é vista como outra sandice, chegando a
ser proibida. Em que as emoções de todos são controladas através
de um medicamento, o “soma”, que não chega a ser obrigatório
pois todas as pessoas o tomam por livre e espontânea vontade,
sabendo ser ele necessário para que possam lidar com as dificuldades
da vida ou mesmo com uma suposta crise existencial. O soma regula a
vida de todos e todos se deixam regular por seus efeitos. Não
saberiam como viver sem ele, e nem gostariam disso, de qualquer
forma.
Nesse
futuro distópico, o amor não existe, apenas o desejo sexual. E cada
ato é sempre com um parceiro diferente. A música como a conhecemos
também não, e sim algo que descrito no texto nos faz pensar em um
arremedo de música, em que as harmonias, o ritmo, ou a melodia
seriam desidratados até que restasse apenas um sinal hipnótico
eletrônico, executado para as plateias em salas de concerto. Os
livros foram banidos, aliás, os recém-nascidos aprendem a odiá-los
através de procedimentos que os relacionam a traumas criados em
laboratório. O cinema, como dito acima, surge como um excitador de
sensações eróticas através de sensores que afetam lábios e pele
(algo parecido com aqueles equipamentos de “realidade virtual”).
Nesse
mundo as crianças continuam nascendo mas não através das relações
sexuais, e sim de um processo de fertilização in vitro, portanto o
sexo não serve mais à procriação. Aliás, a própria ideia de
gravidez é outra coisa que causa repulsa a todos, homens e mulheres.
Não existem famílias.
A
solidão também é algo que foi banido dessa sociedade. A ninguém é
permitido ficar sozinho por muito tempo, a não ser durante o sono.
Todos devem interagir o tempo todo em atividades coletivas, reuniões
sociais, lugares públicos, concertos, ou nas assembleias em que o
Administrador dá o ar da sua graça aos cidadãos, que aspiram a um
contato maior com seu grande líder.
Mas
o que estaria por trás de todas essas normas? A simples eliminação
do sofrimento. Sim, pois para que isso fosse possível a cultura
teria que ser banida. Livros, filmes e músicas que aguçassem o
nosso senso crítico, ou textos que provocassem questionamentos,
filmes que possam desestabilizar nossas certezas, ou nos fazer sonhar
com existências impossíveis, amores que nos fariam sofrer quando
não correspondidos. A isso junta-se também a extinção da
monogamia, já que a constante mudança de parceiros sexuais afasta a
possibilidade de qualquer empatia que mais tarde possa resultar em
algum tipo de sofrimento amoroso ou sentimento de posse. A supressão
da gestação nas mulheres também tem como objetivo a libertação
de um sofrimento imposto pela natureza. Assim como a extinção do
relacionamento entre pais e filhos, fonte de neuroses e limitações,
portanto, de mais sofrimento.
Mas
apesar do soma e de todas as regras garantidoras desse bem-estar
coletivo, o país tem suas castas. A sociedade é dividida em Alfas,
Betas, Gamas e Ípsilones, os menos relevantes. Cada um deles tem uma
única tarefa, manter o sistema funcionando.
É
nesse cenário que encontramos Bernard, um Beta sem muita distinção
nessa sociedade, não consegue ser popular como gostaria, nem ter as
mulheres que deseja, não é atraente, sente-se deslocado (dizem que
tem álcool no sangue), e nutre sentimentos específicos para com a
bela Lenina. Lenina é uma jovem saudável, que mantém a rotina de
variação de parceiros, toma seu soma diariamente, segue à risca
todas as regras, e até acha possível fazer sexo com Bernard, mas
ela acha que ele às vezes age de um jeito meio estranho. Ele a
recrimina por ter tantos parceiros, sente ciúmes dela, uma coisa sem
sentido, se irrita com frases repetidas por Lenina, que condensam o
pensamento que rege a existência naquela sociedade.
Um
dia, os dois vão numa excursão até uma parte afastada daquela
“civilização”, que existe como se fosse um local de exílio,
uma floresta em que vivem os excluídos, os rebeldes, os que não
aceitaram viver sob o soma e as regras do Administrador. São os
“selvagens”. Ali eles vivem como animais, precariamente, em
cavernas, cabanas, numa espécie de zoológico sem grades, açoitam a
si mesmos num tipo de espetáculo aos cidadãos da civilização que
vêm em bando observá-los.
Um
desses selvagens é John. Bernard descobre que John é filho não
reconhecido de um membro do governo e decide levá-lo à civilização,
junto com sua mãe, a gorda e desdentada Linda. Bernard intui que
agindo assim conseguirá ascender na sociedade e deixar para trás
seus dias apagados. Finalmente poderia ter todas as mulheres que
quisesse e todo reconhecimento que merecia. E é exatamente isso que
acontece, Bernard perde a conta dos encontros amorosos que consegue e
começa a ser benquisto por todos apenas com a promessa de levar
consigo o “selvagem” a reuniões sociais, exibindo-o como uma
curiosidade.
O
selvagem John, é claro, não consegue se encaixar naquele mundo,
para ele nada faz sentido, e sua principal atividade é ler volumes
surrados de peças de Shakespeare, autor desconhecido de todos ali
(aliás, uma das características incríveis do texto de Huxley é as
acuradas citações dos textos do bardo em vários momentos,
inclusive dando origem ao nome do livro - “Brave New World”, é
tirado de Macbeth).
John também não consegue aceitar a forma direta como Lenina se
oferece a ele. Seus sentimentos por ela são fortes mas ele insiste
em falar de amor, coisa que ela não consegue entender ou aceitar,
sua irritação é crescente a cada vez que ele tenta convencê-la de
que o sexo deveria ser uma consequência do amor, e não um ato
mecânico.
Lenina
também percebe mudanças em seu pensamento, causadas por John. Ela o
deseja como o faria com qualquer outro, a diferença é que quando
ele a recusa ela se magoa. Algo que nunca aconteceu antes
simplesmente porque ninguém nunca a recusou. E essas recusas fazem
com que seu desejo por ele aumente cada vez mais a ponto dela não
querer saber de outro homem, ou seja, ela desenvolveu um sentimento
por uma pessoa em especial, algo que não é permitido, nem ela nunca
achou que fosse possível ocorrer.
Ao
final, depois que os três são punidos e condenados a deixar Londres
e irem para ilhas a suas escolhas, John escolhe uma ilha com clima
frio, propício a quem gostaria de se entregar à leitura, mesmo com
o sofrimento do frio, e outras precariedades. Quando perguntado pelo
Administrador o porque de sua escolha ele responde: “Eu escolho o
direito à infelicidade”.
Se
“Admirável Mundo Novo” é um livro tão importante e suscita
questões tão pertinentes, então por que me senti desapontado ao
lê-lo? Talvez por certos trechos mal desenvolvidos ou das descrições
truncadas de coisas que não existem (e o próprio Huxley admitia
falhas na narrativa num prefácio de 1946 – o livro é de 1932), ou
talvez por conta da minha dificuldade em considerar verosímeis
fantasias futuristas.
Mas
o que difere este livro de outras histórias futuristas, como as de
Jules Verne, por exemplo, é que em Verne, o futuro é cheio de
coisas novas e fantásticas, mas as pessoas agem como no tempo em que
o livro foi concebido. Já em Huxley e seu “Brave New World”, as
novidades são fantásticas mas modificaram o comportamento dos
habitantes. E não necessariamente para melhor.

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