“A
Irmã de Freud”, de Goce Smilevski, fala sobre abandono e
ingratidão, mas também sobre ódio e solidão, amores mal
correspondidos, a loucura e seus vários tipos, e também sobre
psicanálise. O título remete a Adolfina Freud, a mais nova das
irmãs do “grande homem”, ou o “meu Sig de ouro” (como dizia
sua mãe), Sigmund Freud, pai da psicanálise, cuja obra
transformou-se em totem, marco, monólito (como aquele do “2001”)
que ainda serve de baliza a tudo que diga respeito à mente e seus
meandros, mesmo que parte de suas ideias sejam tidas hoje como
ultrapassadas.
Adolfina
é a caçula de oito irmãos, apenas dois deles homens. Quando
pequena desenvolveu um laço de união com seu irmão mais velho
Sigmund. Este já imerso em livros, estava sempre lhe ensinando algo
ou contando-lhe histórias. Os dois não se desgrudavam. A pobreza da
família Freud obrigava-os a privações terríveis, a mãe
trabalhava como empregada em Viena. Mal tinham o que comer. Portanto
o estudo era visto como uma tábua de salvação, e logo Sigmund foi
eleito o salvador daquela pátria familiar.
A
saúde frágil da jovem Adolfina, somada à penúria em que viviam
acabou fazendo com que a mãe Amalia cunhasse a frase que
acompanharia a menina por boa parte da sua vida: “Teria sido melhor
se eu não tivesse parido você”. Mas as recriminações e
grosserias por parte da mãe não limitavam-se a essa frase terrível.
Qualquer coisa era motivo para que Amalia externasse seu desgosto
pela filha. Logo sua solteirice também passou a ser motivo para
comentários maldosos por parte da mãe. Adolfina aguentava tudo
estoicamente.
Um
dia conheceu Rajner, um jovem tão depressivo quanto ela. Os dois
encontraram-se um no outro mas o destino acabou os separando. Outra
que marca a vida de Adolfina é Klara, a irmã do futuramente famoso
pintor Gustav Klimt. Ela é uma mulher à frente do seu tempo,
quebrando tabus de comportamento feminino, códigos de vestimenta,
atitudes que a maioria das mulheres do começo do século XX não
tinham. Interessava-se por política, defendia o direito dos menos
favorecidos e dos explorados pelo precário sistema trabalhista da
época. Acabou sendo visada pelos donos do poder, sofrendo
perseguições e envolvendo-se em confrontos com a polícia, além
de constantemente ser vítima de agressões que acabaram debilitando
não só seu corpo como sua mente.
Acabou
sendo internada numa instituição para doentes mentais onde teve a
companhia da própria Adolfina, que lá se internou por conta da
angústia que não lhe abandonava e da impossibilidade de encaixar-se
num mundo cada vez mais hostil e sem esperança, em que sua própria
mãe lhe dedicava um ódio que parecia infindável.
E
seu irmão? Bem, Sigmund transformou-se no Dr. Freud, festejado pela
intelectualidade e por seu país. Suas relações com a irmã já não
eram as mesmas. Mas às vezes ele a visitava na clínica, ou ela se
juntava à família dele em viagens, como para Veneza, por exemplo.
Mas
as décadas foram passando, os irmãos de Adolfina foram morrendo e
ela se se viu pobre, dividindo sua tragédia com duas irmãs, Rosa e
Paulina (que havia ficado cega). Na década de 1930, com a ascensão
do nazismo ela encontrou algo mais com que se preocupar, já que eram
judeus. A ameaça de invasão da Áustria por Hitler levou o Dr.
Freud (já octogenário e debilitado por um câncer bucal) a utilizar
passes especiais para fugir do país antes que os nazistas chegassem.
Levou consigo sua esposa, seus filhos, o médico que o tratava (e sua
família), fez até questão de levar seu cãozinho de estimação. E
deixou para trás suas irmãs Adolfina, Rosa e Paulina. Por que fez
isso? Era o que Adolfina tentava entender. Quando foi por ela
questionado Sigmund simplesmente alegou que não achava necessário
levá-las, pois para ele, Hitler não teria sucesso em seu intento de
dominar a Áustria. Portanto não haveria necessidade de que elas
saíssem de lá. Mas aquilo que ele defendia ser o melhor para suas
irmãs não era o que achava ser o melhor para si mesmo.
Assim,
às três irmãs Freud restaram os sofrimentos impingidos aos judeus
vienenses, a humilhação, as perseguições, e ao final, a morte num
campo de concentração nazista.

Nenhum comentário:
Postar um comentário