quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

A Irmã Caçula

A Irmã de Freud”, de Goce Smilevski, fala sobre abandono e ingratidão, mas também sobre ódio e solidão, amores mal correspondidos, a loucura e seus vários tipos, e também sobre psicanálise. O título remete a Adolfina Freud, a mais nova das irmãs do “grande homem”, ou o “meu Sig de ouro” (como dizia sua mãe), Sigmund Freud, pai da psicanálise, cuja obra transformou-se em totem, marco, monólito (como aquele do “2001”) que ainda serve de baliza a tudo que diga respeito à mente e seus meandros, mesmo que parte de suas ideias sejam tidas hoje como ultrapassadas.

Adolfina é a caçula de oito irmãos, apenas dois deles homens. Quando pequena desenvolveu um laço de união com seu irmão mais velho Sigmund. Este já imerso em livros, estava sempre lhe ensinando algo ou contando-lhe histórias. Os dois não se desgrudavam. A pobreza da família Freud obrigava-os a privações terríveis, a mãe trabalhava como empregada em Viena. Mal tinham o que comer. Portanto o estudo era visto como uma tábua de salvação, e logo Sigmund foi eleito o salvador daquela pátria familiar.

A saúde frágil da jovem Adolfina, somada à penúria em que viviam acabou fazendo com que a mãe Amalia cunhasse a frase que acompanharia a menina por boa parte da sua vida: “Teria sido melhor se eu não tivesse parido você”. Mas as recriminações e grosserias por parte da mãe não limitavam-se a essa frase terrível. Qualquer coisa era motivo para que Amalia externasse seu desgosto pela filha. Logo sua solteirice também passou a ser motivo para comentários maldosos por parte da mãe. Adolfina aguentava tudo estoicamente.

Um dia conheceu Rajner, um jovem tão depressivo quanto ela. Os dois encontraram-se um no outro mas o destino acabou os separando. Outra que marca a vida de Adolfina é Klara, a irmã do futuramente famoso pintor Gustav Klimt. Ela é uma mulher à frente do seu tempo, quebrando tabus de comportamento feminino, códigos de vestimenta, atitudes que a maioria das mulheres do começo do século XX não tinham. Interessava-se por política, defendia o direito dos menos favorecidos e dos explorados pelo precário sistema trabalhista da época. Acabou sendo visada pelos donos do poder, sofrendo perseguições e envolvendo-se em confrontos com a polícia, além de constantemente ser vítima de agressões que acabaram debilitando não só seu corpo como sua mente.

Acabou sendo internada numa instituição para doentes mentais onde teve a companhia da própria Adolfina, que lá se internou por conta da angústia que não lhe abandonava e da impossibilidade de encaixar-se num mundo cada vez mais hostil e sem esperança, em que sua própria mãe lhe dedicava um ódio que parecia infindável.

E seu irmão? Bem, Sigmund transformou-se no Dr. Freud, festejado pela intelectualidade e por seu país. Suas relações com a irmã já não eram as mesmas. Mas às vezes ele a visitava na clínica, ou ela se juntava à família dele em viagens, como para Veneza, por exemplo.

Mas as décadas foram passando, os irmãos de Adolfina foram morrendo e ela se se viu pobre, dividindo sua tragédia com duas irmãs, Rosa e Paulina (que havia ficado cega). Na década de 1930, com a ascensão do nazismo ela encontrou algo mais com que se preocupar, já que eram judeus. A ameaça de invasão da Áustria por Hitler levou o Dr. Freud (já octogenário e debilitado por um câncer bucal) a utilizar passes especiais para fugir do país antes que os nazistas chegassem. Levou consigo sua esposa, seus filhos, o médico que o tratava (e sua família), fez até questão de levar seu cãozinho de estimação. E deixou para trás suas irmãs Adolfina, Rosa e Paulina. Por que fez isso? Era o que Adolfina tentava entender. Quando foi por ela questionado Sigmund simplesmente alegou que não achava necessário levá-las, pois para ele, Hitler não teria sucesso em seu intento de dominar a Áustria. Portanto não haveria necessidade de que elas saíssem de lá. Mas aquilo que ele defendia ser o melhor para suas irmãs não era o que achava ser o melhor para si mesmo.

Assim, às três irmãs Freud restaram os sofrimentos impingidos aos judeus vienenses, a humilhação, as perseguições, e ao final, a morte num campo de concentração nazista.


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