Em
Breve Tudo Será Mistério e Cinza, de Alberto A. Reis, começa
contando a história de François e sua esposa Honorée (mais tarde
conhecida como Eufrasia). O romance inicia-se no embarque dos dois
num navio que zarpa para o Brasil. Estamos em 1825, e naquela época
uma viagem marítima intercontinental podia se transformar num
pesadelo. Os navios não tinham como fazer frente as intempéries, e
a surpresas desagradáveis viam-se os passageiros à mercê por
meses.
O propósito da viagem do jovem casal era desbravar o interior da província de Minas Gerais, cuja fama de seu solo rico em ouro e diamantes havia chegado ao velho mundo. Tudo fora preparado pelo sogro de François, o sr. Thierry Martinet, dono de uma famosa joalheria de Paris, que acossado por uma chantagem envolvendo o desaparecimento de quatro diamantes brutos de uma condessa, que estavam em seu poder, resolve por bem mandar a filha e o genro para o Brasil, a fim de mantê-los a salvo dos perigos que vislumbrava haja visto as ameaças que vinha sofrendo.
Depois de uma viagem terrível, cheia de contratempos, os dois chegam ao Rio de Janeiro.
Na capital, François recebe no Consulado Francês a terrível notícia de que as ameaças ao sogro levaram-no à morte. Fora assassinado pelos chantagistas cruelmente. E com ele morreram também seus dois filhos, cunhados de François. Portanto sua esposa, Honorée, não tinha mais família alguma. O cônsul entrega-lhe uma carta enviada pelo sogro antes de sua morte, em que explica toda a situação em que estava envolvido, as suspeitas sobre o suposto ladrão das pedras preciosas, que em conluio com a própria dona delas, havia encontrado uma forma de lhe extorquir. Bem, era nisso em que o joalheiro defunto achava que estava envolvido. O que ele não sabia, e nós, leitores, só saberemos lá pela parte final do romance, é que o ladrão das pedras tinha sido o próprio François. E que sua concordância em ir para o Brasil, cumprindo assim as determinações do sogro, na sua cabeça angustiada pela culpa, se mostrava a melhor maneira de ressarci-lo do roubo. Ledo engano.
Mas agora não havia como voltar atrás. A única coisa a fazer era continuar no Brasil, partir para Minas, e pôr em prática os planos de prospecção da riqueza, que de tão abundante, apenas esperava pelos que primeiro a alcançassem. É claro que não seria tão simples assim.
A sorte de François foi contar com a ajuda de algumas pessoas tão poderosas ou influentes quanto aqueles que gostariam de ver o estrangeiro bem longe do minério nacional. O fazendeiro Francisco Murat, que se transformou numa espécie de conselheiro do francês, principalmente no que dizia respeito à periculosidade do coronel Hermenegildo, homem irascível, que marcava duelos por qualquer desentendimento (e trapaceava para assegurar sua vitória), e vivia atacado pelas hemorroidas.
Outra pessoa que fez questão de ajudar François foi d. Maria da Lapa, uma velha viúva, que vivia sozinha com seus escravos, vivendo da renda de seu marido morto. Graças a ela François entrou em contato com a poderosa d. Anna Jacinta, também conhecida como d. Beja, poderosa cortesã que mantinha as melhores relações na sociedade mineira, e foi de imensa valia a François na sua luta pela busca da riqueza.
François, apesar de casado com a bela Honorée, acabou se envolvendo com uma das escravas de d. Beja, a espevitada Duzinda, que depois, movida por um ciúme sem sentido, acaba fazendo com que os planos do francês vão por água abaixo (literalmente).
Uma dos trechos significativos do romance, é a noite em que Honorée, depois de emocionalmente abalada por uma cerimônia típica africana, tem despertada em si um furor sexual que a deixa numa espécie de transe erótico, chegando a assustar o próprio marido.
No aspecto histórico, o que chama a atenção é a acuidade com que o autor discorre sobre as terras e as vilas do interior de Minas. E a revelação de que alguns quilombos, em vez de servirem de território livre para escravos fugidos, acabavam sendo prisões destinadas a membros de tribos rivais quando na África.
O narrador da história também não faz concessões verbais, nem suaviza expressões bem ao gosto dos tempos atuais. O séc. XIX é apresentado com toda a crueza e crueldade.


